Sueli Caramello Uliano
Escrevi, há alguns anos, umas palavras que, penso, sempre conservarão a
sua validade: “Grande e internacional é a mulher do 8 de março; poética e
carinhosamente ovacionada é a do segundo domingo de maio. Duro mesmo é
brilharem as duas numa só estrela, no miúdo dia a dia.” Mas estamos em julho e
tratando da questão do feminismo, assunto que é bom manter sempre em evidência,
já que é uma realidade cotidiana sobre a qual é imprescindível refletir.
Homens ou mulheres, ao verem desfilar autodenominadas “vadias” ( refere-se à marcha das vadias realizadas em várias
cidades do Brasil) que se dizem contra
a violência, mas são fortemente agressivas na sua manifestação, poderão
alimentar uma certa crítica: “Vejam no que deu o tal do feminismo”. E, com
isso, identificam a feminista com a vadia. Mas imagino que muitas mulheres
que hoje se desdobram para dar conta da família e de um trabalho profissional
fora do lar, ou solteiras que estudam e trabalham, ao verem um artigo de jornal
intitulado “Nós, as vadias”, terão reagido imediatamente: “Nós, não! Vocês!”
O feminismo, que iniciou o seu percurso há mais de 200 anos, buscando
que se valorizasse a maternidade, serviu de etiqueta, na década de 60, para
convencer a mulher de que dedicar-se a filhos seria abortar a sua vida
profissional.
E, na esteira de uma insustentável imitação do modo masculino de ser,
promoveu que a mulher imitasse o seu suposto
carrasco nos vícios mais vulgares, principalmente em uma prática sexual sem
compromisso com a família.
Mas o tempo foi passando e os pilares ideológicos, como sempre têm os
fundamentos falsos, perderam a sua sustentação e a mulher entendeu que a
maternidade pode conviver com uma vida profissional fora do lar.
Mais que isso: a reflexão sobre esse conflito que se impôs à mulher
acabou por revelar que esse é um conflito de todos. Todos precisam do aconchego do lar – inclusive os
homens! E as mulheres solteiras ou sem filhos
(que sempre serão maternais no modo feminino de doar-se aos outros) também!
Todos precisam de um tempo para si, para o seu crescimento pessoal, que a vida
profissional fora do lar não tem o direito de usurpar.
Detesto o viés feminista que vê o homem como um
inimigo da mulher. Não deve ser assim.
A mulher, para valorizar-se, não precisa – e no fundo não quer – armar uma
batalha contra o sexo oposto. Isso é desgastante e faz o jogo do inimigo que se
dedica a dividir ideologicamente a sociedade. Homem e mulher precisam ser
parceiros, colaboradores, cada um contribuindo, com seu modo próprio de ser, na
construção de uma sociedade mais justa, menos violenta, com direitos
respeitados e sincero esforço por cumprir os deveres, como prioridade.
Verdadeiro feminismo hoje é o que busca a conciliação. Homem e mulher
precisam refletir juntos sobre como conciliar vida familiar e profissional.
Precisam, em um exercício constante de criatividade, descobrir como articular
sonhos e aspirações, muito unidos na diversidade e sem prejuízo da própria
identidade. A família humana só tem a ganhar.
Sueli Caramello Uliano, pedagoga, é mestre em Letras pela USP e autora
de Por um novo feminismo (editora Quadrante).
Fonte: Blog do
Carmadélio


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