Rodrigo Constantino
O programa “Globo
Repórter” dessa sexta-feira (16 de Agosto de 2013) mostrou que todo tipo de
família é o máximo, a coisa mais linda do mundo. “Família é aquilo que cada um
diz que é”, afirmou a psicóloga entrevistada.
Mães sem pais, pais sem
mãe, pai solteiro sozinho, vários agregados misturados vivendo sob o mesmo
teto, casal separado super amiguinho onde o ex tem a chave da casa dela (e os
filhos, por algum motivo, vivem alimentando a ideia de que eles podem reatar),
tudo apresentado pela Zileide Silva. Bem progressista e moderno.
A única formação que
ficou parecendo ultrapassada, retrógrada, reacionária, chata e careta é a de
papai, mamãe e filhos. Revolução cultural gramsciana? Imagina… Para quem
não conhece bem o que seja a estratégia de Gramsci para a tomada do poder pelos
comunistas, recomendo uma resenha que
escrevi em 2009 do ótimo livro do saudoso General Coutinho sobre o assunto.
Abaixo, alguns trechos:
Muitos preferem acreditar
inclusive no óbito da ideologia socialista depois da queda do Muro de Berlim e
da União Soviética. Doce ilusão! O moribundo apenas recuou um pouco, fez
algumas plásticas superficiais, mudou a embalagem, mas continua bastante vivo.
As idéias de Gramsci
serviram justamente para esta mudança tática, para a adaptação dos socialistas
à nova realidade. Mas a meta continua a mesma: conquistar o poder e criar o
“novo homem” e o “novo mundo”, onde a necessidade é coisa do passado burguês,
as classes desaparecem e todos vivem felizes para sempre.
Pode parecer incrível
para alguns que esta utopia ainda possa conquistar tantos adeptos. Mas basta um
olhar mais atento em volta para constatar que isso é fato: o socialismo ainda
encanta muita gente. E com os instrumentos estratégicos fornecidos por Gramsci,
o perigo aumenta exponencialmente.
[...]
O sistema defensivo da
burguesia deverá ser neutralizado. Entre as principais instituições alvos,
estão os partidos políticos, o parlamento, a classe empresarial, a Igreja, as
forças armadas, o aparelho policial e a família. Como explica o autor, “o
empreendimento de neutralização é complexo e é conduzido pelo amplo trabalho
psicológico, político e ideológico que realiza o esvaziamento do moral do
elemento humano das organizações burguesas, de tal modo que elas perdem o seu
valor funcional e ético perante a sociedade civil”. Serão utilizadas táticas
como o “denuncismo”, isolamento, constrangimento e inibição, patrulhamento,
penetração ideológica e infiltração de intelectuais. Trata-se de uma batalha
longa, que exige paciência, mas que cria as condições necessárias para a tomada
do poder.
[...]
Ao término do livro, o
autor oferece alguns sinais do avanço da estratégia gramscista no Brasil, que
não podem fugir aos olhares mais atentos. Os mais jovens não notam a mudança
cultural porque não conheceram os valores antigos, e os mais velhos encaram as
modificações como “naturais” ou “espontâneas”, ignorando a “penetração cultural”
bem conduzida pelos intelectuais orgânicos.
Em primeiro lugar, temos
o conceito de “politicamente correto”, que passou a dominar qualquer debate e
ofuscar a livre opinião ou independência intelectual. Trata-se de
“socialização” da opinião, e o patrulhamento ideológico é uma poderosa arma
nesse sentido.
Além disso, o conceito de
legalidade está sendo substituído pelo de “legitimidade”, esvaziando as normas
e leis em troca das “reivindicações justas”. Invadir terras ou saquear
estabelecimentos passam a ser atos “legítimos”, pois representam um passo na
luta pela “justiça social”.
Existem outros exemplos,
como o ataque aos valores familiares tradicionais, o uso manipulado da questão
racial para negar a tolerância multirracial burguesa, o uso dos “direitos
humanos” como proteção ao criminoso, identificado como vítima da “sociedade
burguesa”, enquanto a vítima real é tratada com indiferença por ser
identificada geralmente como burguês privilegiado(…) a utilização da
“opinião pública” como critério de verdade maior que a própria lógica;
O diretor do Instituto
Liberal, Bernardo Santoro, capturou bem o espírito da crítica:
Eu
cresci em uma família de pais separados e sempre digo que acho qualquer modelo
diferente do tradicional algo péssimo pros filhos. Eu sou um defensor da
liberdade de casamento e da liberdade das formas de família por achar que não
tenho o direito de impor meu modelo de vida pras pessoas, mas achar bonito
esses modelos que apareceram na globo, não acho não.
Uma
coisa é defender a liberdade de formas familiares, outra coisa é glamourizar
esses modelos. Acho que a Globo errou a mão.
Exato. Como liberal, eu
defendo o direito de as pessoas viverem de forma diferente. Claro, desde que
respeitados os direitos dos outros, principalmente os interesses das crianças
envolvidas. Mas esse não é o ponto em questão. O problema é essa glamourização
do “diferente”, só por ser diferente. E quanto mais diferente, mais legal, pois
não podemos ser “intolerantes”, “preconceituosos”. Essa perda da capacidade de
julgar de forma minimamente objetiva é a desgraça de nosso tempo.
E os maiores
prejudicados, como sempre, não são os membros da elite relativista, e sim os
mais humildes da periferia, que pagam um preço bem elevado por essa degradação
moral e esse relativismo disseminado de cima para baixo. A família tradicional
sempre foi, com todos os seus possíveis defeitos, um obstáculo aos avanços do
estado totalitário. Por que será que a esquerda bate tanto nessa instituição?


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